quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Certeza que Escolheu a Profissão Certa?



image: blog psicoclínicas
Se você tem mais de 17 anos com certeza entenderá o meu post e até pode reviver a agonia desta fase. Além dos hormônios a todo vapor, é uma fase complicada. Não se é nem criança, nem adulto. Entre todas as novas experiências e responsabilidades da fase, escolher a profissão é uma delas.

Imaginem, você mal acabou de se largar os brinquedos, tem que decidir como será sua vida nos próximos 40 anos. Lembro da sensação de vazio, no dia em que peguei meu diploma de publicitária, com meus 21 anos de idade. Não sabia nem se ria ou se chorava com a realização. No final das contas, trabalhei, vi que não era minha praia e troquei de profissão.

E ai, pra que escolher a profissão tão cedo? Nem o cérebro está pronto o suficiente para tomar decisões.  Segundo pesquisas do  Instituto Americano de Saúde Mental (NIMH) e pela Universidade de Los Angeles na Califórnia (UCLA), o cortex pré frontal, responsável pelas decisões não alcançam a maturação complete antes dos 21 anos. O Sistema as vezes impõe algumas coisas que só com o tempo entendemos que, o que buscamos é realizar nossos sonhos. Mesmos que eles mudem constantemente. Por isso a dica de hoje se puder é: não tenha presa. Escolher a profissão é um processo, se puder espere. Faça igual aos suiços, ao terminar o ensino médio eles começam a trabalhar, viajam  e se dedicam a outra coisas antes de começar um ensino superior. Pense na possibilidade de fazer um técnico. A duração é menor, você pode começar a trabalhar na área além de ser um preparatório para o ensino superior.


Pesquisando no site da UNESP achei um texto "bala" do escritor Ignácio de Loyola Brandão que conta de forma maravilhosa este drama. Se um dia você já passou relembre, se um dia passará prepare-se, todas as decisões passam por um processo de escolhas. A primeira delas é ir atrás dos seus sonhos...



Aos 17 anos o filho ouviu a pergunta dos pais, que se mostravam ansiosos:
– Então, já sabe o que vai fazer?
– Estou pensando.
– Os vestibulares estão aí, ninguém espera.
– Ainda não decidi.
– Quando vai decidir?
– Eu também me pergunto. Tem tanta coisa!
– O que vai te dar segurança?
– Não sei. Alguma coisa na vida dá segurança?
– Como vai sustentar a família?
– Que família? Nem tenho namorada, pai!
A mãe estava ouvindo, quieta. Entrou na conversa:
– Pois está na hora de ter uma. Para endireitar essa vida!
O filho voltou-se para um, para outro, chutou o chão com a ponta do tênis.
– Quer dizer que são duas decisões? Profissão e namorada?
– Com a tua idade eu já trabalhava, assim me aposentei cedo.
A mãe voltou à carga:
– Nunca pensou lá na frente em uma boa aposentadoria, uma vida calma, filhos e netos...?
– Mãe, eu tenho 17 anos... Aposentadoria? Nem acabei o colegial, nem fiz vestibular, nem tenho emprego.
– Mas já é um homem! E homem tem de saber o que fazer! Como vai ganhar dinheiro?
– Pensam que é fácil? No tempo de vocês, já que falam tanto desse tempo, que nem sei qual é, era mais fácil. Tinha quatro ou cinco coisas. Banco, comércio, medicina, engenharia, advocacia, farmácia, funcionalismo público.
– Coisas que permitiam uma carreira, meu filho.
– Vocês pensaram no sonho?
– Que sonho?
– No meu sonho.
– E qual é o seu sonho? Vamos! Diga! Quanto dinheiro vai ganhar com o seu sonho?
– Não sei, ainda não estou dentro dele.
– Sonhos são bons para sonhar. Mas o que seria da vida real, do pé no chão, do dia-a-dia?
– Tem tanta coisa. Pensei em ser designer, gosto de desenho, de fotografia, de cinema. Ou ser paisagista. Pensaram? Desenhar jardins com plantas? Ou artista plástico! Biólogo é uma profissão legal, saber sobre a vida de tudo. Químico é outra que posso curtir numa boa. Ou físico. Meu sonho mesmo era ser astronauta...
– Estamos vendo, vive no mundo da Lua! Desça na Terra, menino!
– Menino? Olha a minha idade.
– Pé no chão.
– Numa boa posso ser arquiteto, médico. Cirurgião de cabeça. Um transplantador de corações e órgãos. Verdade. Pensaram? Ou construir pré­dios enormes. E gastronomia? Ser chef. Querem coisa melhor? Ou perfumista. Comandante de avião.
– Avião? Avião nem pensar, pelo amor de Deus.
– Encadernador, enólogo. Adoro vinho.
– Pé no chão, meu filho. Está flutuando!
– Está todo mundo no ar, pai! Pensa que não converso com ninguém? Pensa que é fácil nesse mundo de hoje? Informática. É um caminho. Mas em que especialização? E dentro dessa especialização, em que campo? Nesse campo, em que segmento? Há milhares de nichos, profissões, ofícios, trabalhos, mas qual será o meu? Gosto de tudo.
– Quem gosta de tudo não gosta de nada. Igual a jogador que joga em todas as posições e acaba não jogando em nenhuma.
– Outro dia, entrei numa faculdade, fui a departamento por departamento, olhando, investigando. Esse mundo de hoje é louco, pai. Tem milhões de profissões e milhões de desempregados. Uma coisa é legal, não dá dinheiro. Outra dá dinheiro, não é legal. Olha, vocês esqueceram dessa minha idade, ou talvez naquele tempo fosse diferente. Agora, é uma angústia desgraçada. E se eu errar? Perco quantos anos?
Os pais até que concordavam, procuravam uma forma de ajudar, não sabiam. O mundo atual é cheio de armadilhas, todo mundo fala em empreendedorismo, em investimento, em mil cursos, phd, mba, estágios, bolsas, pedem experiência, mas como ter experiência antes do primeiro emprego?
– Você tem a vida toda pela frente...
– Todo mundo diz isso, é clichê, gente. O mundo está apressado, veloz, apressam a gente para escolher, decidir, encaminhar, resolver. Como solucionar a vida nessa idade?
A mãe decidiu:
– Quer saber? Siga o sonho.
– E se eu errar?
– Somente você fará essa cobrança. Os sonhos se reciclam. Escolha, desiluda-se, canse, mude, a vida é sua, ninguém pode te cobrar.
– Siga o sonho. Obrigado, mãe. Agora é só encontrar esse sonho.


Ignácio de Loyola Brandão, 72 anos, é escritor e jornalista, tem 32 livros publicados. Recebeu este ano o Prêmio Jabuti de Melhor Ficção de 2008 com o livro O Menino Que Vendia Palavras

Fonte:http://www.unesp.br/guia/leitura_reflexao.php

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