quarta-feira, 23 de abril de 2014

O Travesti e o Religioso

Oi =) queridos!
Em meio a tanta intolerância, onde a falta de justiça governamental dá espaço aos justiceiros da sociedade que fazem justiça com as próprias mãos, pensei em como me posicionar perante a tudo isso; em como tratar os discriminados, excluídos e marginalizados. As vezes nem é pobre, negro ou  homossexual, mas é simplesmente alguém com outros princípios, religião ou filosofia. Não tem tatuagem nem estilo para distinguir,  as vezes é invisível; não tem cara, mas tem atitude. Foi isso que Rubem Alves ilustrou em forma de parábola baseada na do Bom Samaritano (leia Lucas 10:30-37). Ela relata que bondade não faz acepção de pessoa, qualquer um pode fazer.  Um travesti nos ensina isso. Obrigada Rubem Alves por expressar-se tão bem a ponto de nos constranger com esta verdade tão absoluta e amorosa. Amar é uma escolha e não um sentimento! 


O TRAVESTI E OS RELIGIOSOS


Daquele dia em diante Mestre Benjamin parou de esperar que lhe fizessem perguntas. Ele se assentava e a cada noite contava uma das parábolas do Senhor das Estórias. Um homem perguntou ao Senhor das Estórias sobre os mandamentos. Ele respondeu: O primeiro mandamento é que devemos amar a Deus mais do que amamos as coisas que possuímos. E o segundo mandamento é que devemos amar o nosso próximo com o mesmo amor que temos para conosco mesmos.”






imagem: Leland Bobbé

“E quem é o meu próximo”, o homem perguntou. E foi essa a estória que ele contou:

“Era uma vez um garçom que, depois de uma noite de trabalho, voltava para a sua casa com o pouco dinheiro que havia recebido como gorjetas para sustentar a sua família. Eram quatro horas da madrugada, as ruas estavam vazias e escuras. Valendo-se da escuridão dois ladrões atacaram o garçom e, além de roubarem o seu dinheiro, bateram nele, deixando-o como morto na calçada. O tempo passou. O sol anunciou a manhã. Passava por aquela rua no seu carro um sacerdote que se dirigia à igreja para celebrar a primeira missa. Vendo o homem caído ele se lamentou e disse: ‘Se não fosse pela missa, eu pararia para ajudá-lo.’ Rezou um Padre Nosso e uma Ave Maria em intenção do ferido e foi cumprir suas obrigações religiosas. Logo depois passava por aquela mesma rua no seu carro um pastor evangélico que se dirigia para a sua igreja a fim de dirigir uma reunião de oração. Ao ver o ferido ele perguntou: “Meu Deus, que terá feito esse homem para que o Diabo assim o castigasse?” Premido por suas obrigações religiosas ele de longe executou gestos de exorcismo e continuou na direção da sua igreja. Levantado o sol, manhã clara, passava por ali um travesti, em sua lambreta, vindo de uma noite de farras. Ao ver o homem caído o seu coração se comoveu. Parou, colocou o homem na garupa e levou-o a um hospital. Lá, tirou do seu bolso todo o dinheiro que tinha e disse: “Para pagar os gastos que houver...” E desapareceu antes que a polícia chegasse. Terminada a parábola, Jesus perguntou aos que o ouviam: “Desses três, qual foi aquele que cumpriu o mandamento do amor?”

Todos ficaram em silêncio por saberem a resposta. Mas os religiosos não gostaram...(Parábola do Bom Samaritano)

                                                      Rubem Alves

Pedagogo, poeta e filósofo de todas as horas, cronista do cotidiano, contador de estórias, ensaísta, teólogo, acadêmico, autor de livros para crianças, psicanalista, Rubem Alves é um dos intelectuais mais famosos e respeitados do Brasil.

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