quarta-feira, 7 de maio de 2014

Não Sei Quem Você É...


imagem da internet
... mas posso apostar o meu pescoço que você algum dia já errou na sua vida, ou mais de uma vez. A verdade é que seja lá quem for, onde você mora,  idade, família ou até mesmo sexo, você alguma vez tentou fazer tudo certo, mas não conseguiu.  O que muitos não percebem é que errar é humano e quase todos vivem cobrando um dos outros perfeição. As vezes até os pais não se dão conta desta cobrança com os seus filhos e quando crescem viram adultos em busca de algo que não tem. Como resultado, inventamos um vício chamado hipocrisia que domina o mundo e as gerações. Somos um povo que consiste em aparentar uma virtude, um sentimento que não se tem; dá para parar com isso? O melhor remédio é a honestidade. Experimente doses diárias com bom senso e muito amor; mas se prepare para ser no mínimo diferente da grande maioria.

Fernando Pessoa  experimentou isso na pele de Álvaro de Campos ao traduzir o sentimento de ser apenas ser humano em uma sociedade hipócrita. Confira:


Poema em linha reta
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



 Fernando Pessoa
No ano de 1888, nasceu em Lisboa um dos maiores escritores de sempre, Fernando Pessoa. A sua infância foi bastante complicada, pois perdeu o pai e irmão nesta fase inicial da sua vida. Após o sucedido, o novo marido de sua mãe leva-os para África do Sul. Aí Pessoa adquiriu uma educação britânica, o que lhe proporcionou um enorme contacto com a língua inglesa. Revela-se um aluno brilhante, no entanto nunca conseguiu alcançar uma bolsa de estudo para entrar numa universidade inglesa. De volta a Portugal, Pessoa frequentou o curso superior de letras, mas desistiu passados dois anos sem qualquer aproveitamento. Então arranjou emprego como correspondente comercial. Fernando Pessoa é encontrado morto na sua casa em 1935 com 47 anos de idade.

Fernando Pessoa, apesar de ter escrito várias obras só conseguiu publicar uma em vida, Mensagem. Ao longo da sua vida publicou vários trabalhos em revistas, tendo introduzido o Modernismo em Portugal através da edição da revista Orpheu. Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, são os heterónimos mais importantes deste escritor. Pessoa apesar de muito admirado pelos seus amigos, nunca conseguiu ser reconhecido pelo público, continuando a ser um anónimo empregado de escritório. Hoje em dia Fernando Pessoa é conhecido mundialmente, sendo as suas obras traduzidas para mais de 37 países.



Um comentário:

  1. São raros os momentos nos quais somos nós mesmos.
    Bj e fk c Deus.
    Nana
    http://procurandoamigosvirtuais.blogspot.com.br/

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